O mapa distorcido que usamos todos os dias

O planisfério da Terra não é nenhuma novidade. Há séculos, cartógrafos de diversas partes do mundo trabalham para retratar os mares, continentes e ilhas à sua volta com precisão. Mas e se alguém lhe dissesse que o mapa múndi que usamos todos os dias em livros de Geografia, salas de aula e serviços de localização, falha de forma catastrófica para representar a proporção correta entre as massas de terra do nosso planeta?

A projeção mais utilizada atualmente, inclusive a escolhida pela Google no seu aplicativo de mapas, é a de Mercator. Criada no século XVI por um cartógrafo flamengo de mesmo nome, seu propósito original era facilitar a vida de navegadores por meio de uma representação precisa das distâncias marítimas entre terras. A forma oval do planisfério acaba fazendo com que o mapa seja esticado horizontalmente. O que Gerardus Mercator fez foi compensar essa distorção com outra, desta vez no sentido vertical. Por isso, até hoje, a projeção de Mercator é a mais recomendada para navegações.

Só há um problema nessa história: o aumento da área nos pólos, característico desse tipo de mapa, tende ao infinito. Deste modo, terras nas latitudes mais altas, como a Antártica, a Europa e a América do Norte, são ampliadas em dezenas de vezes o seu tamanho original. A África, por exemplo, aparece na projeção de Mercator no mesmo tamanho que a Groenlândia, quando o continente é quase 14 vezes maior que a ilha dinamarquesa. Outra comparação clássica é a do Brasil com o Alasca, que aparecem como se possuíssem dimensões iguais. O Brasil é o quinto maior país do mundo, com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados em sua extensão. O Alasca é o maior dos estados americanos, mas seus 1,7 milhões de quilômetros quadrados só chegam a um quinto da área do Brasil.

A projeção de Mercator é adotada hoje, majoritariamente, por convenção. Mas há quem diga que a escolha de manter como padrão uma perspectiva que infla os países do Norte, está ligada ao pensamento xenofóbico de Europeus e Norte-americanos de que o que está acima deve ser superior e, portanto, maior. Por esse motivo, surgiram projeções mais “solidárias” com o resto do mundo, que buscam retratar a proporção entre as áreas continentais o mais próximo possível da realidade. Uma das visões mais conhecidas é o mapa de Peters, criado por um geógrafo alemão na década de 70. Repare que as regiões mais próximas da linha do Equador são alongadas na vertical e comprimidas na horizontal, enquanto terras mais próximas dos pólos são “achatadas” para compensar a diminuição do comprimento vertical com uma largura maior. Com tantas modificações gráficas, a projeção de Galls-Peters perde para a de Mercator na representação das formas dos continentes, mas consegue retratar seus tamanhos de forma (bem) mais próxima da realidade.

Quando se fala em cartografia, não se pode dizer que um mapa é mais certo que outro. As diferentes projeções existem para justificar os diversos propósitos dos mapas para a humanidade. A projeção de Mercator não é errada, mas talvez esteja sendo utilizada de forma inadequada. Enquanto pode ser ideal para se navegar com segurança, pode-se questionar o seu emprego no ensino da Geografia, com algo que não representa com precisão, literalmente, o tamanho do mundo.

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